Amigos

Agosto 19, 2009

É meio tarde, eu já estou com sono e o texto vai ficar uma droga, mas não poderia adiar por mais tempo a publicação deste post.

De fato, tem dias que eu penso em como escrever o que eu estou com vontade, mas a ideia redondinha ainda não apareceu em minha cabeça. Por isso mesmo eu resolvi escrever do jeito que for surgindo.

Tempos atrás, lá pelos anos 96-97 eu morava em Campinas – SP, onde fui fazer doutorado em Engenharia Mecânica, na área de materiais. Parte do meu tempo livre eu gastava em frente ao computador da sala de informática da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp escrevendo e-mails para meus amigos em Natal, ou descobrindo o que podia ser feito naquele novo universo que era a internet.

Nessa época eu lia uma revista que tratava desse assunto (a internet), na qual destacava-se o surgimento de vários grupos de pessoas que trocavam mensagens sobre assuntos afins. Era o embrião do que depois vieram a ser as redes sociais de relacionamento.

Era bem simples: você enviava um e-mail para um servidor com uma linha de código que informava em qual grupo de discussão você queria se inscrever, e a partir disso passava a trocar mensagens com todo mundo que também tivesse se inscrito ali. Eu sempre gostei muito de música (como eu já disse em outro post) e naquele tempo uma das minhas bandas prediletas era a Legião Urbana. Acabei me inscrevendo numa lista sobre a banda e todos os dias trocava algumas mensagens com as pessoas dali. Aquilo foi ficando bacana, a ponto de começar a surgir uma vontade de todos nos conhecermos pessoalmente.

Não me recordo bem como, mas uma garota que morava em São Carlos, uma cidade próxima a Campinas, convidou todo mundo a se reunir em um final de semana na república dela. Eu e mais uma meia dúzia de integrantes da lista topamos ir.

Como não dava pra trocar fotos, porque não havia esse lance de máquina fotográfica digital e enviar qualquer arquivo anexo por e-mail exigia uma caixa postal bem grande, que ninguém tinha, ficamos todos na expectativa de saber como eram os rostos uns dos outros.

No momento em que cheguei a rodoviária de Sanca havia já um casal de meninas me esperando: a Carlinha e a Anne. Gentilíssimas, fiquei apaixonado por ambas e confesso que fiquei vidrado na Anne, até descobrir que ela tinha namorado, o que acabou baldando um bocado meus planos para aquele final de semana.

De qualquer modo, as pessoas foram chegando. Não me recordo bem quando, mas em algum momento eu fui abrir a porta da casa da Carlinha e lá estavam o Érico e a Pop, duas das pessoas mais generosamente magníficas que eu já conheci na vida. Eles dividiam um ap em São José dos Campos e pareciam ter passado a vida inteira juntos, tal a sincronicidade com que se tratavam e se entendiam.

As meninas da casa ficaram todas loucas para tirar uma lasquinha do Érico, que era (e ainda é) um sujeito muito bonito, que usava um piercing em forma de cunha debaixo do lábio inferior. A pergunta que eu mais ouvia elas lhe fazerem era se machucava quando o beijavam. Motivo para o indagarem se podiam testar para tirar a prova.

Depois desse primeiro encontro tornamo-nos todos amigos uns dos outros. Eu fui a outros encontros, onde conheci mais pessoas da lista, com quem mantenho contato até hoje, mas o carinho por aqueles que foram aquele encontro em Sanca jamais foi superado. Talvez pelo fato de termos sido os pioneiros, talvez por estarmos todos longe de casa e querermos muito fazer novos amigos, talvez porque o destino era esse mesmo: onde quer que nos conhecêssemos, seja lá por qual motivo, acabaríamos por nos tornar bons amigos uns dos outros.

O tempo passou, nossas vidas mudaram, a gente mudou. Passamos a nos ver cada vez menos, a trocar menos mensagens, a não telefonarmos uns para os outros, até que ninguém mais sabia do outro direito.

A atitude mais radical foi tomada pelo Érico, que de repente tirou do ar seu blog, sua página do Orkut e se desligou da lista. Cheguei a imaginar que nunca mais voltaria a ter notícias dele e aquilo me deixou bem triste. Não é fácil fazer boas amizades e ainda mais difícil parece ser preservá-las. A sensação que eu tive é que eu era parte da culpa por aquela atitude.

Algumas pessoas tentaram me explicar o que tinha acontecido, mas ninguém chegou a dizer exatamente o que rolou.

Parece piegas, e é mesmo, mas quando perdemos de vista um amigo, a sensação que me dá é que entramos numa espécie de limbo… é como ter uma gaveta esvaziada, que a gente não consegue decidir o que colocar ali dentro.

Muito tempo se passou e dias atrás apareceu uma mensagem automática informando a postagem de um comentário neste blog.

Primeiro imaginei que pudesse ser um dos 3 ou 4 amigos que sabem que isso aqui existe, pra dizer que gostaram ou não de algo que eu escrevi. Qual foi minha surpresa ao ver o nome do Érico e uma frasezinha logo embaixo: “olha só quem eu encontro aqui”.

Não dá pra descrever a alegria que foi receber aquele telegrama eletrônico e talvez por isso eu não tenha pensado em nada que fosse realmente bom para lhe escrever.

Ele deixou o e-mail dele no comentário, mas eu resolvi responder aquele recado escrevendo esse post, porque eu gostaria muito que todos vocês soubessem que eu continuo aqui, apesar de tudo, amando a todos vocês como eu amo o Érico desde que o vi pela primeira vez, naquela manhã fria em Sanca, na porta da casa da Carla.

E espero que a gente não volte a se desencontrar outra vez!

Livros

Junho 20, 2009

Quando eu era pequeno e morava em Lagoa Santa, meu sonho era ter um dia uma biblioteca com 25 mil exemplares. Vez por outra eu sentava em frente a estante da sala e ficava contabilizando o acervo pra ver o quão distante eu estava de minha meta.

Sempre gostei bastante de ler. Li muito gibi quando criança e depois de uma pausa na minha adolescência redescobri os quadrinhos com um amigo de faculdade, o Carlos Magno, que também gostava de ler e só comprava os livros dele em sebos. Foi com ele que aprendi a arte de negociar com os caras que eram donos desses espaços.

Passados quase quarenta anos de vida, acredito que ainda estou bastante distante daquela meta, mas o que eu tenho já está se tornando um problema aqui em casa.

Quando eu morava sozinho, tudo que eu tinha de valor eram meus discos, meus filmes e meus livros. Minhas roupas e apetrechos afins cabiam todos em uma cômoda de quatro gavetas e numa escrivaninha. Foi só quando casei com uma historiadora que a coisa começou a ficar profissional. Ela tinha bastantes títulos também e as duas estantes de metal que eu tinha não suportavam tantos livros. Geralmente elas empenavam ou tombavam pra frente, ameaçando um perigoso movimento de queda. Foi aí que decidimos comprar umas estantes de madeira, bem bacanas e bonitas, projetadas para acomodar todo nosso acervo e ainda uma pancada de futuras aquisições.

Hoje, 7 anos depois da compra dessas estantes, o espaço que sobra é o que está entre a lombada superior dos livros e a parte inferior das prateleiras sobre eles. Enfim, ficou complicado.

Prova disso foi que há cerca de 3 semanas uma das prateleiras onde estavam depositadas várias obras de capa dura acabou rachando e desmontando. Tivemos que improvisar uma solução enquanto arrumamos dinheiro pra comprar 2 novas estantes. O principal motivo é que esse tipo de problema deverá voltar a ocorrer com as outras prateleiras, então estamos pensando em trocar essas estantes por novas, mais resistentes.

De qualquer maneira há também o espaço físico disponível no nosso escritório, que limita o tamanho dessas estantes. E como a casa não é nossa, a gente fica com medo de comprar estantes grandes demais, que não caberiam em um novo escritório, em caso de mudança para uma casa menor.

Acho que já deu pra ter uma ideia do problema. Engraçado é ver o rosto de quem vem nos visitar pela primeira vez. Não há quem não nos faça aquela pergunta clássica: “Mas vocês já leram tudo isso?”. É claro que não. Nem é essa a intenção. Eu costumo dizer que sou um colecionador literário. Nem os quadrinhos que eu compro eu tenho mais tempo pra ler, mas não deixo de comprar uma obra sequer do Alan Moore. Será a herança que eu deixarei pra minha filha (além de meus discos e filmes) e tenho esperança de que ela vá gostar de ler.

Isso também não quer dizer que eu não queira ler o que tenho em meu acervo. Mas esse é o tipo de coisa que eu vou deixar pra fazer quando estiver curtindo uma licença prêmio, ou quando me aposentar e for morar em uma casa perto da praia no Nordeste brasileiro, rodeado por duas enfermeiras jovens e gostosas.

Certamente, esse meu vício em comprar a maior quantidade possível de tudo que eu acho interessante acabou suplantando outros desejos, que se tornaram menores, como o de ter um carro, por exemplo. Eu sempre faço as contas e acho melhor investir 300 reais por mês comprando livros do que pagando um automóvel, que também vai me consumir outros quase 500 reais de manutenção mensais. Sem contar que um automóvel se deprecia com o tempo, coisa que não ocorre com meus livros, discos e filmes.

Aliás, eu parei de contar quantos títulos eu tenho faz alguns anos. Foi outro daqueles desejos que eu acabei deixando pra trás.

Infância

Junho 7, 2009

Em 1972, quando eu tinha 3 anos de idade, meu pai conseguiu uma transferência de Natal para Lagoa Santa, uma cidadezinha pacata (pelo menos era naquela época) do interior de Minas Gerais. A gente foi morar em uma vila construída especialmente para os sargentos e sub-oficiais da aeronáutica. Havia ainda outras 2 vilas, uma para os oficiais, localizada às margens da lagoa que dava nome à cidade, e outra para os civis, próxima ao Clube dos Sargentos, que era nosso lugar preferido de diversão durante o dia.

A vila era bacana e grande. Eram 3 quarteirões com casas separadas por cercas e muros baixos na frente. Duas ruas paralelas identificavam a rua de cima e a de baixo, e outras 4, perpendiculares a essas, acabavam o esquadrinhamento do lugar. O quarteirão do meio era o único da rua de cima que ficava de frente para uma nova fileira de casas.  Foi o quarteirão onde moramos por longos 11 anos.

A casa era confortável, de tacos nos quartos e na sala e de pastilhas miúdas e brancas nos pisos do banheiro. Havia até uma banheira, que nunca usamos.

Atrás de casa um gramado enorme, de uns 4 por 15 metros de tamanho, onde minha mãe estendia roupas brancas para quarar. Quando acabava o gramado, começava uma longa descida, também gramada, até a cerca do vizinho de baixo. Não sei quantas vezes eu desci aquele gramado em cima de um pedaço de caixa de papelão até me estatelar perto da cerca. Era divertido, e enquanto a gente não é adulto sempre se acha imortal. Comigo não era diferente.

Não sei bem a razão, mas eu costumava ser um menino muito agressivo naquela época. Talvez pelas surras que meu pai me dava, mesmo quando eu cometia delitos brandos.

A questão era que em poucos meses eu já tinha brigado com quase todo mundo da minha rua e não tinha mais com quem brincar. As mães chamavam seus filhos pra casa quando eu abria o portão de minha casa. Quando eu passava tempos sem arrumar confusão com ninguém, algum garoto da turma dos mais velhos sempre arrumava um jeito de provocar um embate entre eu e outro moleque. O papo era sempre “não sei quem falou que você era fracote e te chamou pra brigar”. A mesma coisa era dita pra outro garoto da rua e em poucos minutos lá estava eu, socando a cabeça dele contra o muro da parede do vizinho.

Mas havia um menino, que morava na rua de baixo, no último quarteirão da vila, com quem eu continuava a brincar. O nome dele era Nielton e o motivo de nosso convívio sereno estava no fato dele morar bem longe de mim. Nossos pais eram e ainda são bastante amigos e não era à toa que eu o considerava “meu único melhor amigo”.

Anos depois o pai de Nielton se mudou com a família para Natal, onde ainda moram, e nossa amizade deu uma esfriada. Bem nessa época, um garoto que morava em frente a minha casa, o Marcelo, foi provocado por aqueles meninos mais velhos para brigar comigo. Círculo formado, nós dois nos olhando, bem em frente ao portão da garagem da casa dos pais dele, ele vira pra o garoto que nos provocava e diz “eu não vou brigar com ele, porque simplesmente não acredito no que vocês estão dizendo”. Aquilo causou uma profunda mudança em mim. Passei a também não acreditar nas barbaridades que me diziam aqueles meninos e me tornei um dos caras mais pacíficos que eu conheço… até hoje!!!

Tudo isso é pra dizer que eu sou pai de uma filha de 1 ano e 2 meses e ela é tão rude no trato comigo e com a mãe, que eu acho que nunca vamos ter longos momentos fraternos juntos. Mas depois eu me lembro daquele dia e de como ele me transformou e torço para que o destino conceda-lhe um momento semelhante de despertar um dia. E que seja logo!!

Como cheguei cá

Maio 16, 2009

Depois de uns tempos, comecei a considerar o fato de que eu sou um sujeito de muita sorte, especialmente quando o assunto são as oportunidades que me foram anunciadas quando eu não tinha grandes expectativas.

Quando eu estava cursando meu terceiro ano de engenharia mecânica na UFRN cursei uma disciplina chamada Física Moderna. Era uma aula ótima de se assistir, porque os assuntos eram de fato interessantes: relatividade e mecânica quântica, física nuclear, propriedades ondulatórias das partículas… Aquilo tudo era fascinante e meu professor (Umbelino, que ainda deve lecionar essa disciplina na UFRN) sabia dar uma aula como poucos. Minha primeira nota foi um 10,0. Um dos poucos que consegui tirar em toda a minha carreira universitária.

Logo depois dessa primeira prova substituíram o professor.

Nessa época (circa 1989) eu já gostava muito de música e começava a descobrir um monte de coisas legais: The Smiths, Cocteau Twins, Joy Division, Bauhaus e afins (sobre isso escreverei em outros posts). Um amigo meu que era bolsista de iniciação científica do departamento de física geralmente se encontrava comigo nas mesinhas de concreto que ficavam em frente à cantina do bloco de laboratórios daquele departamento para conversamos sobre as novidades sonoras do momento. Foi durante um desses bate-papos (tem hífen ainda?) que fomos interrompidos pelo prof. Umbelino, que me convidou a trabalhar com ele oferecendo-me, inclusive, uma bolsa. No momento eu fiquei sem saber direito o que dizer, mas dois dias depois eu acabei procurando por ele pra dizer que aceitava a proposta.

Dois meses depois de estar trabalhando com o pessoal do grupo de pesquisa, ele me informou que um outro professor estava voltando do doutorado na Unicamp e me perguntou se eu topava trocar de orientador. Como eu nem tinha começado a trabalhar direito junto com a equipe, topei. Não tinha nada a perder mesmo.

O professor que estava voltando do doutorado era o Cabral e ele tinha interesse em materiais magnéticos duros, que eu nem suspeitava do que se tratava na época. Conheci o prof. Cabral umas semanas depois disso e a empatia foi imediata. Com ele construímos um equipamento para medir transições magnéticas acima da temperatura ambiente. Aprendi pacas durante esse período.

Quando terminei minha graduação, passei uns 6 meses meio que sem fazer nada, mas tinha uma grana guardada, que gastei toda patrocinando minhas curtições, e por isso não me preocupei muito em pensar no assunto. Nessa mesma época minha namorada de quase 3 anos rompeu comigo, o que desgraçou minha vida por uns 4 anos, mas aqueles 6 primeiros meses foram os piores de superar.

Foi aí que de volta aquela mesa do departamento de física, conversando com outro amigo meu que fazia mestrado lá, Cabral me abordou pra perguntar se eu topava fazer mestrado com ele. Fiquei mais uns 2 dias pensando no assunto, uma vez que eu teria que fazer uma prova de seleção na engenharia química e ainda convencer um professor daquele departamento a me orientar formalmente.

Resolvi topar o desafio. Estudei como nunca e consegui, com a ajuda do Cabral, arrumar um professor que topasse ser meu orientador formal na engenharia química. Mais ou menos no meio do mestrado o Cabral resolveu voltar a Campinas pra fazer um pós-doutorado e me convidou pra ir logo em seguida pra lá. A ideia era eu realizar toda a parte experimental na Unicamp e voltar pra Natal somente pra escrever minha dissertação.

Um amigo meu, o Aderson, topou ir comigo pra me dar uma mão. Lembr0-me que viajei com outro amigo meu, o Roberto, que estava indo começar o doutorado dele no mesmo laboratório que eu ficaria trabalhando.

Como eu tinha somente uns 30 dias pra fazer tudo, trabalhei como um louco, sempre com a ajuda do Aderson, o que impressionou o coordenador do laboratório, um dos sujeitos mais inteligentes que eu conheci em toda a minha vida. Um dia, em um churrasco na casa dele, ele se aproximou e me perguntou se eu tinha interesse em fazer o doutorado com ele depois do mestrado. Fiquei mais uns 2 dias pensando naquilo, sem acreditar na proposta que tinha escutado, mas acabei concordando. No entanto, faltava ainda convencer um prof. da engenharia mecânica da Unicamp a ser meu orientador formal, como havia sido na engenharia química. E mais uma vez o Cabral entrou em ação e conseguiu encontrar um professor que topasse entrar no esquema. Era quase como se fosse um milagre. Cerca de um ano depois eu recebia em minha casa uma carta da Unicamp informando que eu havia sido selecionado para o programa de pós-graduação da faculdade de engenharia mecânica.

Com isso, acabei me mudando pra Campinas, onde acabei morando por 6 anos. Foi a primeira vez em minha vida que iria morar fora da casa de meus pais e esse foi, definitivamente, um dos momentos mais importantes de minha vida.

Primeiros anos

Maio 4, 2009

Durante meus primeiros anos de vida morei em uma pequena cidade do interior do estado do RN chamada Parnamirim, que durante o regime militar ganhou o famigerado nome de Eduardo Gomes, para depois, com o advento da Nova República, voltar a ser batizado com o seu nome original.
Naquela época, circa 1969-1972, a cidade parecia um grande quintal de minha casa. Meu pai era cabo da Aeronáutica e minha mãe tinha abandonado uma brilhante carreira escolar para cuidar de mim.
Eu me recordo bem pouco dessa fase de minha vida, mas algumas coisas eu ainda consigo descrever com bastante precisão. A casa onde morava era pequena e tinha aquele piso cimentado vermelho na sala, que minha mãe encerava semanalmente com uma devoção quase cívica. A cozinha possuía azulejos quadrados, pequenos, de aproximadamente 15 cm de lado que hoje quase não se vê mais nas lojas de materiais de construção. Havia também um pequeno jardim, mas dele eu não consigo me lembrar como era; apenas que existia. Em frente de casa havia uma vendinha, que por aquelas plagas as pessoas chamam de cigarreira, onde eu costumava comprar balas embaré todas as tardes. O gosto era o mesmo de um doce que era montado como se fosse um pirulito, chamado Zorro. Uma das delícias mais maravilhosas de minha infância.
Minha mãe conta que a vida da gente não era moleza, mas meu pai conseguia trazer comida pra casa, que era propriedade dele. Enquanto estava de folga de suas obrigações militares, ele estudava para prestar o vestibulinho da Escola de Especialistas da Aeronáutica, que na época tinha uma concorrência de quase 200 candidatos por vaga. No ano de 1970 meu pai teria sua última chance de tentar entrar na EEA. Era passar ou deixar a vida militar por, provavelmente, um emprego em alguma loja do comércio local.
O pai sempre foi um sujeito inteligente e tinha uma habilidade quase Newtoniana de entender as coisas, além de possuir uma memória pródiga. Fez a prova e passou entre os 10 primeiros colocados. Mudou-se para Guaratinguetá, sede da EEA, onde passou 2 anos aprendendo tudo sobre hélices de aviões, o que viria a ser sua especialidade.
Minha mãe conta que no dia em que ele pegou o ônibus para ir para São Paulo eu passei o dia no portão de casa, esperando que ele voltasse. Fiquei febril, tive alucinações, mas depois tudo ficou bem, na medida do possível.
Três anos, ou quase isso, se passaram até que meu pai voltasse de seu treinamento, mas a cidade continuava a mesma: um grande quintal de minha casa.
Parnamirim continua pequena para a idade que tem. Até hoje temos amigos por lá, com quem nos reunimos vez por outra para tomar cerveja e lembrar daqueles dias mornos do início da década de setenta, quando tudo o que importava para mim era poder, no final da tarde, comer alguns embarés da cigarreira do vizinho.

De volta

Abril 1, 2009

Faz muito, mas muito tempo mesmo, que eu venho tentando voltar a escrever por aqui, mas o destino me surpreendeu numa dessas esquinas que a vida nos faz atravessar.

Ano passado, quando minha esposa estava fazendo exames de rotina, descobriu que estava grávida havia algumas semanas. Para nós, que já tínhamos feito tratamentos intensivos durante cerca de 2 anos, sem resultado, foi uma notícia e tanto. Engraçado que a gente nunca sabe o que fazer ou dizer diante de um acontecimento desses.

Ontem minha filha completou um mês de vida, portanto são aproximadamente 21 meses de uma total mudança de hábitos em nossas vidas. Eu costumava dormir todos os dias por volta das 4 da manhã e agora, quando muito, já estou babando em algum travesseiro, onde quer que eu esteja (no chão do quarto de minha filha, na sala, na minha cama…), antes das 11 da noite. As prioridades mudaram também. Agora vem a Joana antes de qualquer coisa. É ela quem toma banho primeiro, quem come primeiro, quem dorme primeiro e quem acorda primeiro também. Eu simplesmente não consigo fazer mais nada em casa a não ser cuidar do bem-estar (será que tem hífen ainda?) de minha filha e de minha esposa. O tempo encurtou pacas e isso acabou se refletindo na falta de posts nesse meu blog.

Agora as coisas começaram a se organizar. Joana vai pra creche e fica lá a manhã e a tarde inteiras, minha esposa tem um emprego que lhe permite passar parte do dia em casa e eu já consigo manter as idéias em ordem antes das 9 da manhã. Antes da Joana, a diferença entre meu cérebro e um prato de mingau era nenhuma até as 14 horas.

Se tudo continuar seguindo esse rumo, acredito que vou poder dedicar parte de meu tempo livre para escrever aqui.

Sejam pacientes.

Infância

Março 21, 2008

Eu nasci no dia 29 de setembro de 1969, às 9 horas da manhã, em um hospital militar numa cidade próxima a Natal (RN).  Da pra perceber que o número 9 passou a ter um significado importante em minha vida. Minha mãe, que é uma contadora de histórias incrível, relata que eu dei um trabalho danado pra nascer. De fato, ela teve que esperar horas até que resolvessem “gerenciar” meu nascimento. Na narrativa de minha mãe, após meu nascimento ela teve uma hemorragia severa, que nem ela sabe dizer como foi controlada. Como eu nasci horas depois do momento que deveria, enfrentei muitos problemas de saúde nos meus primeiros meses de vida.

Vale a pena lembrar que meus pais eram um típico casal da década de sessenta: ele um cabo da aeronáutica e ela uma professora de ensino fundamental que conheceu meu pai na escola onde cursava o ensino médio.

Com o meu nascimento, minha mãe tornou-se dona de casa e meu pai viu-se em uma situação difícil. Para continuar com seu emprego na aeronáutica, precisa passar na seleção nacional para especialistas da força aérea brasileira. A concorrência era enorme, algo em torno de 300 candidatos por vaga, e ele precisava passar. Afinal de contas, agora ele era um pai de família com um rebento pra criar.

No final do ano de 70 meu pai embarcava para Guaratinguetá, para cursar o curso de especialização em hélices, o que lhe daria a patente de terceiro sagento da aeronáutica.

Minha mãe também conta que no dia em que meu pai partiu para São Paulo, eu fiquei no portão de nossa casa, sob um Sol inexorável, esperando meu pai voltar. Fiquei doente. Insolação. Por conta disso, quando minha mãe finalmente conseguiu me por para dentro de casa, eu não parava de repetir, delirante e apontando com as mãos para o teto do meu quarto: “os pássaros… as árvores…”

Meu pai só voltaria para casa no final de 72 e eu não tenho muitas lembranças do que ocorreu durante este período em minha vida. Preciso consultar minha mãe a respeito.

Vocês estão prontos?

Março 1, 2008

Este é, de fato, o meu primeiro blog pessoal. Até este momento de minha vida já me aventurei por algumas novas ferramentas deste universo bizarro, mendaz e fascinante que é a internet, mas sempre por motivos profissionais.

Não que eu seja um expert em alguma dessas linguagens de programação cheias de letrinhas (html, css, xml e afins), e não acho que um dia serei, mesmo que vez por outra eu sinta uma vontade bastante grande de aprender certas coisas.

Já estou fugindo do assunto que deveria abordar neste primeiro post. O que quero mesmo dizer é que vou usar este espaço para poder deixar registrado para a posteridade um punhado de boas e más lembranças que carrego comigo já faz uma data. É como uma autobiografia, mas sem a amarra de contá-la do modo tradicional, cronologicamente. Daí um dos motivos do título deste blog ser “Anacrônicas”. O outro é que apesar de tentar escrever tudo como se fossem pequenas crônicas, na maior parte das vezes elas não o serão, pelo fato de não tratarem de temas atuais, mas de coisas que vivi já faz muito tempo e que sempre tive vontade de compartilhar com algumas poucas pessoas que estimo.
Espero, sinceramente, que elas se saciem com o que será dito aqui. Um amigo meu já me disse que “um blog deve ser criado para você, não para os outros”.

De um jeito ou de outro, seria muito chato se somente eu lesse o que escrevo.

Torço para que vocês e eu estejamos prontos pra isso.