Bragfost 2010: sei lá, mil coisas… (pt. final)
agosto 30, 2011
Dia seguinte, bem cedo, estavá lá eu de pé e, impressionantemente, sem ressaca alguma. O meu primeiro porre da vida foi resultado de algumas garrafas de sangue de boi, ali por volta de 81, na comemoração do reveillon. Lembro de ter acordado em minha casa, na minha cama no dia seguinte, mas não me recordo como eu fui parar lá.
Enfim, segui para meu café da manhã e sentei-me numa mesa com uma brasileira e um alemão muito jovem. Tentei fazer com que conversamos sobre amenidades, mas deu logo pra perceber que a minha colega brasileira estava mais disposta em me impressionar do que em conversar coisas frugais. Pode ter sido só uma impressão errada, mas aquele ar de afetação me incomodou um pouco, apesar dela parecer ser bem legal depois de bêbada.
Na sala de seminários do evento, assisti atentamente às palestras de meus colegas brasileiros e também dos alemães. Era uma de cada lado, sempre sobre temas afins. Assim, ao final da sessão temática, ambos voltavam lá pra frente pra responder a todas as questões da plenária. Confesso que gostei bastante do formato, que apesar de ser bem formal, foi levado em um clima extremamente agradável. Almoçamos no hotel e voltamos para mais uma meia dúzia de palestras no período da tarde. Ninguém arredou o pé dali e as discussões eram bem bacanas, com ambos os lados participando bastante. Uma pena não haver mais ninguém, além da Luíza, que trabalhasse sobre o mesmo assunto que eu. Na noite anterior, ela explicou que não era bem o principal projeto dela, mas que era o que ela tinha sido instruída para apresentar. Por isso acabei não formulando nenhuma pergunta pra ela ao final de sua apresentação.
Durante os intervalos para os lanchinhos, reuníamos sempre as mesmas pessoas, o autodenominado cluster. Ficamos bem amigos uns dos outros e a animação era tanta que até meu colega italiano (sobreo qual falo em seguida) acabou se juntando a nós a maior parte do tempo.
A noite era sempre reservada para um jantar caprichado, sendo que desta vez iríamos visitar a vinícola Aurora e jantar lá mesmo. Quando chegamos ao restaurante da vinícola, acabei me separando do cluster e sentei-me ao redor de vários alemães e do Lucio, o sujeito italiano do qual falei anteriormente. Ele foi quem me salvou a noite. Ficamos eu ensinando português pra ele e ele me ensinando alemão. Sujeito divertidíssimo, talvez o mais divertido de todos os estrangeiros que eu já conheci.
Nem sei quantas garrafas de vinho tomei, mas, novamente, acordei no dia seguinte inteirasso. A primeira palestra da manhã seria da Annelise e eu, sinceramente, não tinha muitas expectativas sobre a apresentação, cujo tema era o design. Pra mim, até aquela manhã, a profissão de design limitava-se a traçar belas linhas arredondadas, com vistas a transformar aquilo em uma torneira, ou um veículo, por exemplo. Essa minha convicção estava prestes a ruir. A apresentação da Annelise e a parceira alemã dela foram as mais espetaculares do evento, na minha opinião. Design é, de fato, a adoção de soluções de engenharia baseadas principalmente na observação da natureza. Pelo menos foi isso que as palestras do dia deixaram bem claro pra mim. Então, os caras apresentaram projetos de adesivos, de filtros de metais pesados, de tintas especiais, de ferramentas de corte, todas baseadas em “tecnologia reversa” a partir da observação de plantas e animais. Fantástico. Deu até vontade de mudar de área.
No meio da tarde, sem almoçarmos, fomos visitar mais algumas vinícolas, uma casa especializada em produtos derivados do leite e da pele de carneiros e, finalmente, nosso último jantar. Não preciso dizer que nos divertimos muito, bebemos muito e comemos um monte também.
O dia seguinte era o último e seria dedicado aos cabeças do evento falarem sobre as possibilidades de interação entre os brasileiros e alemães.
No meio da tarde fomos todos nos deslocando em ônibus para Porto Alegre e chegando lá começaram as despedidas. Annelise, que morava por ali, foi a primeira a partir. Em seguida, na fila para embarque, o Durante, que fazia um estágio de pesquisa em São Francisco (EUA) também se desvencilhou do grupo e, finalmente, cada um dos membros do cluster foram para suas salas de embarque. Prometemos manter contato, trocamos e-mails e voltamos pra casa. Eu, bastante contente com a organização do evento e, principalmente, com as pessoas que eu tinha conhecido durante aqueles dias. Impressionante como temos bons pesquisadores, tão jovens, trabalhando com assuntos tão interessantes, sobre os quais nunca sequer ouvimos ou haveremos de ouvir falar.
O cluster não morreu depois disso, mas anda bem adormecido. Normal. Afinal de contas, basta digitar algumas poucas palavras na tela de um PC para podermos voltar a ter contato e matar as saudades uns dos outros. Espero poder trazer essas pessoas em futuro próximo para participarem de algum evento aqui na UEM. Esse ano consegui trazer o Marcelo Lobo, o único que tinha agenda disponível para a ocasião. Quem sabe no IV SEM, em 2013, eu dê mais sorte.
Bragfost 2010: sei lá, mil coisas… (pt. 2)
outubro 17, 2010
A informação que eu tinha era de que haveria um traslado para nos levar até Bento Gonçalves. Saí pela porta de desembarque doméstico esperando uma pequena comitiva segurando um cartaz com o logo do evento, mas não havia ninguém por lá. Imaginei que fosse por conta do horário e resolvi me sentar e esperar por uma hora. Quando deu umas 9h30min comecei a ficar preocupado. Levantei-me, dei umas voltas ali no entorno da área de desembarque e não encontrei ninguém da organização. Foi então que eu resolvi fazer uma ligação para o número do celular do pessoal da Capes, que já estava em Bento Gonçalves desde o dia anterior. A Adriana me atendeu e disse que iria mandar o pessoal me encontrar. Uns 10 minutos depois, dois rapazes muito jovens estavam diante de mim com um cartazinho do evento levantado na altura do peito. Aproximei-me deles e fiquei por ali, puxando um papinho básico enquanto eles esperavam o resto do povo chegar. Primeiro chegaram uns 3 rapazes alemães. Depois um casal alemão. Logo depois mais 3 alemães. Daí eu comecei a imaginar como seria ficar ali, no meio daqueles alemães todos, sem nenhum conhecido por perto e sem saber falar a língua deles, até cerca das 11 horas. A solução foi ficar com os rapazes que iriam nos levar a Bento. Enquanto isso, fiquei torcendo pra Luisa aparecer naquela porta de saída da sala de desembarque. Mas ela não apareceu.
Quando deu umas 11 e pouco da manhã, o pessoal nos levou até o ônibus que iria nos transportar pra o hotel do evento. Escolhi uma poltrona no meio do ônibus, botei meu ipod e fiquei torcendo pra nenhum alemão tentar ser simpático e puxar papo comigo. Sorte que isso não aconteceu.
Aproveitei pra dormir durante toda a viagem até o hotel, que era bem bacana. Reservaram quartos individuais pra gente e isso me deixou bastante tranquilo. Imagina eu ter que dividir o quarto com um daqueles alemães!!!
Na fila do check in do hotel conheci a Adriana e a Thaís. A surpresa foi ver que ambas eram muito jovens. Na minha cabeça eu tinha imaginado a Thaís, com quem eu tinha conversado ao telefone algumas vezes, uma daquelas senhoras em meio de carreira, que vivia ocupada o dia inteiro preenchendo relatórios financeiros e protocolando processos, como a agente 001 do filme Monstros S.A..
Fiz meu check in e me mandei pra meu quarto. Guardei minhas roupas no armário, tomei um banho quente e aproveitei pra dormir mais um pouco. Perto das duas da tarde resolvi descer até o restaurante pra comer alguma coisa. Aí aconteceu uma coisa engraçada. Estávamos somente eu e uma garota alemã no restaurante e o garçon sequer falava inglês. A alemã se esforçava pra poder entender o que estava no cardápio, todo escrito em português, e o garçon, quando tentava ajudar, respondia em português às dúvidas da menina. Fiquei ali esperando pra ver onde aquilo terminaria e pronto pra ajudar caso eles não conseguissem se entender, mas no final deu tudo certo.
Fiz meu pedido e voltei pro quarto, novamente pra dormir.
Perto das 8 da noite tomei outro banho, coloquei uma roupa e desci até o lobby do hotel pra ver se me encontrava com a Luisa, que seria minha salvação. Sou um cara bem tímido e fazia um tempão que não falava em inglês com ninguém. Tinha bastante temor em não entender ninguém e também em não me fazer entender. Essas coisas ficaram ali, dando voltas na minha cabeça, enquanto meu desespero aumentava em não ver a Luisa, que tinha defendido sua tese na Alemanha e era uma daquelas pessoas capazes de tirar opiniões até de um poste.
Havia um conjunto de sofás bem de frente ao balcão de atendimento do hotel e eu fiquei ali, sentado, torcendo pra nenhum alemão se aproximar. Aliás, uma das coisas que logo percebi e que todos eles, quando passavam por mim, sorriam e tentavam falar algo educado, como “bom dia”, ou “boa noite”. Desconfio que todos foram instruídos a se comportarem daquele jeito, mas pode ser somente uma desconfiança tola de minha parte. Vai ver eles são mesmo simpáticos com todo mundo e eu estava fazendo uma análise preconceituosa dos caras.
Enfim, li uns jornais, folheei uns papeis sobre os lugares turísticos da cidade e continuava ali, sentado no sofá, torcendo para encontrar a Luisa. Já tinha olhado todas as fotos do caderno do evento e realmente não conhecia mais ninguém. Outra coisa que percebi foi que eram todos muito jovens, alguns com caras de adolescentes mesmo.
Finalmente, perto das 8 e meia da noite, a Luisa apareceu. Foi uma alegria e um alívio pra mim. Além de ser minha referência no evento, era também a primeira pessoa com quem eu conversaria de fato desde que saí de Maringá. Sem contar que fazia uns 12 anos que a gente não se via.
Depois dela dar entrada no hotel, fomos juntos até o restaurante, que naquela hora já estava bem lotado. Ficamos ali, os dois, colocando o papo em dia, tomando um espumante branco, quando uma dupla de rapazes do nosso lado quis brindar com a gente. A Luisa, como eu já sabia que aconteceria, colocou todo mundo pra conversar e na hora do jantar acabou sentando em outra mesa.
Eu continuei ali com o Lobo e o Nuñez e acabamos nos sentando em uma mesa com mais 3 brasileiros, dentre os quais a Annelise e o Assis. O Nuñez era um argentino que morava há anos na Alemanha, então ele conseguia entender português se falássemos um pouco devagar. Quando a gente sentia que ele não estava acompanhando o assunto, falávamos em inglês. A Annelise é o tipo de garota divertida, com quem você quer estar o tempo inteiro, pra não perder a oportunidade de dar umas risadas, ou de estabelecer uma conversa frugral. Assim como a maioria dos alemães, ela e o Lobo são bem jovens. O Assis é engenheiro civil (pelo menos foi o que me pareceu) e tem aproximadamente a minha idade. Todos inteligentíssimos, devo dizer.
Depois de muitas risadas e vários copos de vinho, resolvi me recolher. Afinal de contas o dia seguinte seria bem puxado, com palestras o dia inteiro. Aprimeira palestrante seria a Luisa. Ela falaria sobre o tema de meu atual projeto e eu não perderia uma palestra da Luisa por nada.
Bragfost 2010: sei lá, mil coisas…
setembro 25, 2010
Não sei se já disse antes, mas sou professor universitário desde 2002. Oito anos de um trabalho bacana, mas muitas vezes inglório. Antes disso eu fiz meu doutorado e um ano de pós-doutorado no melhor grupo de pesquisa que alguém possa querer trabalhar, coordenado pelo prof. Gama, no Instituto de Física da Unicamp.
Como Engenheiro Mecânico de formação, sempre me senti uma espécie de coadjuvante importante do grupo, especialmente pelo respeito que o prof. Gama declarava claramente por mim (isso ocorre até hoje). No entanto, nunca foi um cientista produtivo como meus colegas Físicos. Alguns deles conseguiam publicar até 10 artigos por ano e ainda durante o doutorado. Em toda a minha carreira científica devo ter uns 15 trabalhos publicados, se muito. Tá certo que acabei assumindo papeis muito complicados logo que assumi minha função de professor na UEM (coordenação de curso entre 2003 e 2006 e chefia de departamento de 2008 a 2012), o que acabou interferindo diretamente no meu desempenho em outras áreas de atuação. Tá certo também que apesar de só ter conseguido ter um artigo aceito para publicação ano passado, a revista onde ele está publicado tem fator de impacto quase igual a 8. Mas no final das contas, todos sabemos que quando alguém te acha um sujeito produtivo, isso se deve muito mais ao número de artigos publicados em revistas indexadas pelo Qualis do que pelo seu fator de impacto.
Isso dito, acredito que ficou claro pra todo mundo que não me considero um sujeito realmente importante em minha área de atuação (processamento de materiais magnéticos, em especial aqueles com efeito magnetocalórico) e não considerava a hipótese disso vir a acontecer no curto prazo.
Qual não foi minha surpresa quando, cerca de 2 meses atrás, eu recebi um e-mail da Capes, enviada pela Thais, convidando-me para um evento a ser realizado em Bento Gonçalves. Seria um dos eventos científicos que seriam realizados até 2011 entre Brasil e Alemanha, com o intuito de promover a interação científica entre esses dois países. Seriam 30 pesquisadores representando o Brasil e outros 30 a Alemanha e tudo seria pago pela Capes. Daí minha surpresa passou a ser substituída por desconfiança. Por que cargas d’água alguém no MEC achou que eu seria um dos 30 melhores representantes para o país num evento desses? Passei a imaginar que era um daqueles e-mails armadilha que recebemos eventualmente pela internet. Eu preencheria alguns papeis e em algum momento pediriam meus dados bancários ou do meu cartão de crédito e então eu seria fraudado. Ou então os anexos que vinham junto com o convite continham um vírus que destruiria todos os dados de meu HD.
Imediatamente deletei a mensagem e segui com minha vida.
Cerca de 2 semanas depois recebi um envelope com o selo da Capes e pensei: se for uma fraude, esses caras são profissionais. Peguei o número de telefone que a Thais colocava como o número de contato dela em Brasília e resolvi ligar, cheio de medo. Foi só a partir dessa ligação que eu passei a ficar mais tranquilo sobre a seriedade do convite e muito mais surpreso por ter sido um dos convidados.
Havia ainda um problema a ser vencido: Joana! Minha esposa teria que concordar ficar uns 4 dias cuidando dela sozinha, o que eu sei que é um trabalho e tanto. Conversamos e ela topou o desafio.
Alguns dias antes da viagem dei uma olhada em um dos últimos e-mails da Thais e percebi que não havia ninguém conhecido na lista de convidados, além da Luisa, que inclusive faria uma palestra sobre o tema com o qual trabalho atualmente.
Isso me dava um medo danado, porque eu sou tímido pacas e fazia uns 3 anos que não conversava com ninguém em Inglês. Por outro lado era bacana ter a chance de voltar a participar de eventos científicos logo com um desse nível.
Meu avião partiria de Maringá às 6 da madruga; logo, eu teria que estar no aeroporto um pouco depois das 5, no máximo, o que significava dizer que eu teria que acordar às 4 pra me preparar. Joana só foi dormir perto da meia-noite, e eu com ela.
Dormi o vôo inteiro até Curitiba e de lá até Porto Alegre, onde desembarquei às 8h30min. Estava pra começar mais uma série de rituais que envolve esses eventos científicos. Eu estava excitado e ao mesmo tempo preocupado com a maneira como iria responder a isso… (continua)
500 dias com ela
abril 14, 2010
Eu gosto de assistir a filmes (não entendi ainda porque alguns esquecem da preposição depois do verbo que, até onde sei, é transitivo indireto). Com o nascimento de minha filha, ir ao cinema ficou bem complicado. Faz cerca de um ano que não entro numa sala. Perdi a oportunidade de assistir a essa dita nova revolução cinematográfica, que foi lançada por Avatar. Provavelmente só vá assistir a algum filme em 3D daqui alguns meses, quando deixarei o cargo de chefe do meu departamento e poderei desfrutar de um intervalo de almoço maior, ou sair um pouco mais cedo do trabalho.
Todo esse prólogo é pra dizer que para matar minha vontade de ver filmes tenho alugado e comprado muitos DVDs. Como em tudo relacionado às artes, sempre há coisas absolutamente geniais (O Leitor), outras nem tanto (Distrito 9). Provavelmente, e por esse ser um tema que muito me interessa, eu passe a escrever mais sobre os filmes que tenho assistido em casa. Lembro-lhes que não sou um crítico de cinema, nem pretendo ser. Tudo o que escreverei aqui é tão somente a opinião de um leigo que gosta um bocado de ver boas atuações na tela, seja ela pequena ou grande.
Para começar, falarei um pouco sobre 500 dias com ela, que assisti ontem à noite, enquanto minha esposa e minha filha dormiam serenamente. Fiquei sabendo do filme por meio da postagem de um clipe da música there´s a light that never goes out, do The Smiths, que foi posto no orkut de um amigo meu, o Picelli.
Cliquei lá mais por gostar da música do que pela curiosidade em saber do filme. Gostei do que vi (e também do que ouvi) e na primeira oportunidade interroguei o Picelli sobre o filme, que me disse ter achado a estória massa. Pois bem, fiquei na expectativa de o DVD aparecer na locadora do meu bairro e enquanto isso tratei de ler alguma coisa sobre. Pra quem não sabe, o filme é sobre um sujeito (Tom), arquiteto, que no entanto trabalha em uma empresa que faz cartões (desses que a gente dá para as pessoas no Natal). Certo dia, aparece pra trabalhar uma garota (Summer). Dotada de uma beleza estranha e de um senso de comunhão afetiva incomum, não tarda a deixar Tom apaixonado de um jeito que todo mundo deve já ter experimentado (ou vai experimentar, pode crer) uma vez na vida. Então, um dia, eles começam a “namorar”. Só que ele quer que a coisa engrene e ela não quer nada sério… Só estabelecer um relacionamento íntimo com alguém que ela considera um amigo. E isso é a desgraça do Tom. O tempo inteiro do filme o cara fica naquela corda bamba, balançada o tempo todo pela Summer, que apesar de não querer magoá-lo, acaba fazendo isso da maneira mais perturbadora possível. O “namoro” dos dois acaba, mas Tom não quer aceitar a situação.
Na vida real, quando algo assim acontece com a gente, lutamos com todas as forças para acreditar que tudo não seja apenas um momento ruim no relacionamento. A gente sempre espera que a pessoa que a gente ama perceba o quanto a gente é bacana e importante na vida dela, e volte a nos procurar. Mas essas coisas não acontecem na vida real, e nem no filme. Esse drama segue por cerca de metade da película (cerca de 200 daqueles 500 dias do título), até que Tom encontra o que um amigo meu chama de “turning point”. Decide seguir adiante, sabota a própria vida e decide retomar a carreira de arquiteto. Não vou contar o final, porque daí seria uma sacanagem para quem não viu o filme ainda, mas o que posso dizer é que esse tipo de coisa não acontece uma vez somente com cada um de nós.
Minha esposa, que viu apenas os 10 primeiros minutos do filme, percebeu o que a estória queria contar e declarou: “tem mulheres que conseguem foder a vida de um cara.” Na verdade, há mulheres e homens que conseguem fazer isso. Aliás, tem pessoas que fodem e depois são fodidas mais adiante. Eu sou um exemplo vivo disso.
O que posso dizer é que esse tipo de coisa é fonte de uma poderosa força motriz, que nos empurra para direções que jamais tomaríamos, não fosse a influência dessas perturbações emocionais que ficam reverberando em nossas cabeças pelo resto de nossas vidas.
Se você quer passar uns bons 90 minutos de frente pra TV, esse é um título que eu recomendo.
Promessas
fevereiro 20, 2010
E lá se foi 2009… Olhando agora, parece que foi já há tanto tempo! Passei os últimos dias do ano passado de férias na casa de meus pais, em Natal. O plano era tentar passar boa parte do tempo disponível na praia, com minha esposa e filha, pegando uma corzinha e refrescando a cabeça. No entanto, o que consegui foi adquirir uma lombalgia que me deixou entrevado até hoje e um cansaço maior do que aquele que tinha no início das férias.
O problema é que minha filha tinha 22 meses de vida e quando temos que tomar conta de um serzinho desses as coisas nunca são como a gente gostaria que fossem. Para irmos à praia, por exemplo, primeiro tínhamos que juntar tudo o que era dela em algumas bolsas: roupas limpas, toalha, comidinhas, mamadeiras, brinquedos, itens para sua higiene e troca de fraldas, sombrinhas… Depois de tudo arrumado, era nossa vez de nos arrumarmos: salgadinhos, biscoitos, cervejas, refris, água… Quando chegávamos à praia era a hora de desarrumar a bagagem e ajeitar o barraco. Então, com tudo finalmente pronto, já era hora de começarmos a nos arrumar para voltarmos pra casa. Seguimos essa rotina por uns 5 dias somente, até percebermos que esse programa era uma tremenda furada.
Ao mesmo tempo, não dá pra ficar o dia inteiro com um bebê dessa idade dentro de casa. Se saíamos para almoçar ou jantar fora, tínhamos que levá-la junto, já que ela não ficava de jeito nenhum com meus pais. E nunca passamos mais de 3 horas em lugar algum, porque ela não nos deixava comer ou conversar em paz.
Minha lombalgia foi resultado de ficar carregando-a pra todo lado no colo e de dormir em colchões moles demais.
Pra complicar, ela teve uma crise de sinusite e a creche dela só retornou a abrir semana passada. Ou seja, tive que tirar mais alguns dias de férias depois que voltei para Maringá, para poder me recuperar das férias com a Joana.
Esse prólogo é pra explicar que eu tenho feito muito pouco por mim nos últimos 2 anos. Como já disse aqui anteriormente, minha filha vem sempre antes de qualquer coisa. Mas isso tem me tornado uma pessoa mais gorda, com mais dores no corpo e com menos tempo pra minha esposa.
Pensando um pouco nisso, resolvi estipular algumas metas para esse ano. Coisa que muita gente faz quando vê que um novo giro do planeta pelo espaço vai começar. Uma dessas promessas foi escrever mais vezes nesse blog. Sinceramente, espero poder cumpri-la. Além de ser uma das coisas que faço melhor, tem o efeito de funcionar como um terapia. Talvez por isso meu amigo Arnoud tenha me dito uma vez que a gente cria um blog pra gente, não para os outros.
Outra das promessas que fiz foi a de ler mais. Outra coisa que eu gosto muito de fazer. Pelo menos, até agora, eu tenho conseguido por isso em prática. Consegui ler 2 livros e estou no fim de um terceiro.
O primeiro foi Música, Ídolos e Poder – Do Vinil ao Download, do André Midani. Como uma de minhas paixões é a música, o subtítulo me pegou no ato. Além disso, gosto de biografias. O livro é delicioso e as coisas que o Midani conta de sua vida e de sua carreira profissional são extraordinárias. O segundo foi A Cabeça de Steve Jobs. Eu sou macmaníaco de carteirinha e se tem alguém com uma carreira absolutamente incrível é o Sr. Steve. O terceiro, que ainda estou lendo é também uma biografia, que dizem não ser exatamente verdadeira em sua totalidade, da Billie Holiday (já disse que música é uma de minhas paixões?). Pode até não ser tudo verdade, mas estou gostando pacas da leitura.
A julgar pelo andamento das coisas, pode ser que eu consiga atingir algumas das metas planejadas para 2010.
Mas isso só poderei saber daqui a alguns meses.
Cinema
novembro 28, 2009
Como eu já disse em um post anterior, morei em Lagoa Santa, uma cidadezinha do interior de Minas Gerais, por cerca de 11 anos. Mais precisamente, entre os meus 3 (1972) e 14 (1983) anos de idade.
Depois de algum tempo convivendo com as mesmas crianças na vila militar onde morávamos, acabamos estabelecendo algumas rotinas. Tinha uma época do ano em que todos brincavam de soltar pipa, outra em que só o que fazíamos era tomar banhos de piscina no clube dos sargentos e ainda outra em que passávamos horas, por dias a fio, enrolando uma gosminha parecida com latex, que extraíamos da folha gigante de uma árvore, para fazermos bolinhas bem macia e pesada, que jogávamos contra a parede ou contra o chão para vela quicar bem alto. Tudo sem planejamento. A gente simplesmente resolvia que queria brincar de outra coisa, sempre na mesma época, ano após ano.
No entanto, havia duas coisas que não deixavámos de fazer nunca: jogar bola no campinho que nós mesmo tínhamos feito e ir ao cinema do quartel da aeronáutica ao menos 2 vezes por semana. Era batata: toda quarta-feira e sábado, lá íamos nós todos, a pé, ver o filme do dia.
Como a cidade era pequena, os filmes mais novos demoravam a chegar lá e eles ficavam em cartaz 2 ou 3 dias, dependendo do sucesso. Só havia sessões nas terças e quartas e depois, filme trocado, nos finais de semana.
A sala respeitava o espírito hierárquico militar. Os soldados deveriam sentar nas cadeiras mais próximas a enorme tela. Apesar de ser lá o maior número de assentos instalados, não havia inclinação no piso, causando dois problemas sérios: quem ficava mais a frente, tinha que olhar pra cima pra ver o filme e quem sentava nas fileiras mais distantes da tela, tinha que assistir ao filme com a cabeça virada de lado, para evitar as cabeças a sua frente, salvo quando a sala estava vazia. Os sargentos e sub-oficiais sentavam-se nas cadeiras mais ao fundo e ao centro da sala. Nesse caso, as fileiras eram montadas como num anfiteatro e não havia nenhum dos problemas que os soldados eram obrigados a enfrentar. Apesar disso, tanto para uns, quanto para os demais, as cadeiras eram bem desconfortáveis, de madeira e pequenas. As fileiras reservadas aos oficiais ficavam na parte mais alta da sala, logo atrás das cadeiras dos sargentos. Havia um portãozinho que dividia as duas partes do anfiteatro e lá eles podiam sentar em poltronas de espuma, maiores e mais confortáveis. No entanto, quase sempre estavam vazias e uma vez ou outra nos atrevíamos a pular o portão, geralmente vigiada por um soldado, que passava a sessão toda de pé, do lado do portão, para sentar ali.
Todos tínhamos que ter uma carteirinha de dependentes, renovada todo ano, para entrar no cinema sem pagar. Aquele era o meu documento mais precioso.
Meu pai, quando tinha que fazer plantões, fazia-os na garagem que ficava coladinha com o prédio do cinema. Então, sempre que ele estava lá, eu chegava mais cedo pra dividir um lanchinho e bater um papinho antes de ir curtir meu filme.
Alguns detalhes da sala são inesquecíveis. As luminárias eram na forma de aviões, presos nas paredes laterais e iam se apagando aos poucos antes de o filme começar. Cortinas gigantescas, que escondiam a tela onde o filme seria projetado, abriam-se como por mágica e então as primeiras imagens eram projetadas. Ali eu assisti a dezenas de programas do canal 100, que eram fantásticos. Só quem viu os craques da época fazerem suas jogadas e gols espetaculares numa TV em preto e branco pode entender o que era assistir àquelas imagens em câmera lenta, enormes, sob uma trilha sonora eletrizante, pulsando em nossos ouvidos em som altíssimo.
Havia, na época, uma produtora de cinema chamada Condor, cuja identificação era feita por um condor pousado sobre um galho de árvore, olhando altivo para o horizonte, que depois de uns 10 segundos alçava vôo, desaparecendo na tela. Uma coisa curiosa e engraçada acontecia nesses 30 segundos de projeção: os meninos que sentavam mais perto da tela ficavam fazendo barulho para espantar o condor e vê-lo voar. Alguns até jogavam bolinhas de papel na tela.
Foi nessa sala mágica que eu assisti a vários dos mais impressionantes filmes que eu já assisti na vida: Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Tubarão, os dois primeiros filmes da trilogia original de Guerra nas Estrelas (e eu pensava que alguém tinha errado a numeração do primeiro filme, identificado como o quarto episódio), um filme fabuloso que envolvia uma cena da explosão do Zeppelin, vários filmes de kung fu, westerns, todos os filmes dos trapalhões da época, alguns dramas e muitos filmes catástrofe, como Inferno na Torre, Poseidon e Terremoto. Para esse último instalaram umas caixas de som monstruosas de frente pra plateia, pra dar a sensação exata do problema que as personagens enfrentavam no filme. Como eu era bem criança, não podia entrar para assistir a muitos dos filmes, que só bem recentemente eu tive a oportunidade de ver, mas a experiência me fisgou de jeito e sempre que eu posso, não deixo escapar a chance de ver um filme numa sala de projeção, seja lá que tamanho ela seja. No final, o prazer de se ver imerso naquela ilusão colorida e sonora por cerca de 2 horas numa sala escura é uma recompensa da qual ninguém sabe até quando vamos poder usufruir.
Amigos
agosto 19, 2009
É meio tarde, eu já estou com sono e o texto vai ficar uma droga, mas não poderia adiar por mais tempo a publicação deste post.
De fato, tem dias que eu penso em como escrever o que eu estou com vontade, mas a ideia redondinha ainda não apareceu em minha cabeça. Por isso mesmo eu resolvi escrever do jeito que for surgindo.
Tempos atrás, lá pelos anos 96-97 eu morava em Campinas – SP, onde fui fazer doutorado em Engenharia Mecânica, na área de materiais. Parte do meu tempo livre eu gastava em frente ao computador da sala de informática da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp escrevendo e-mails para meus amigos em Natal, ou descobrindo o que podia ser feito naquele novo universo que era a internet.
Nessa época eu lia uma revista que tratava desse assunto (a internet), na qual destacava-se o surgimento de vários grupos de pessoas que trocavam mensagens sobre assuntos afins. Era o embrião do que depois vieram a ser as redes sociais de relacionamento.
Era bem simples: você enviava um e-mail para um servidor com uma linha de código que informava em qual grupo de discussão você queria se inscrever, e a partir disso passava a trocar mensagens com todo mundo que também tivesse se inscrito ali. Eu sempre gostei muito de música (como eu já disse em outro post) e naquele tempo uma das minhas bandas prediletas era a Legião Urbana. Acabei me inscrevendo numa lista sobre a banda e todos os dias trocava algumas mensagens com as pessoas dali. Aquilo foi ficando bacana, a ponto de começar a surgir uma vontade de todos nos conhecermos pessoalmente.
Não me recordo bem como, mas uma garota que morava em São Carlos, uma cidade próxima a Campinas, convidou todo mundo a se reunir em um final de semana na república dela. Eu e mais uma meia dúzia de integrantes da lista topamos ir.
Como não dava pra trocar fotos, porque não havia esse lance de máquina fotográfica digital e enviar qualquer arquivo anexo por e-mail exigia uma caixa postal bem grande, que ninguém tinha, ficamos todos na expectativa de saber como eram os rostos uns dos outros.
No momento em que cheguei a rodoviária de Sanca havia já um casal de meninas me esperando: a Carlinha e a Anne. Gentilíssimas, fiquei apaixonado por ambas e confesso que fiquei vidrado na Anne, até descobrir que ela tinha namorado, o que acabou baldando um bocado meus planos para aquele final de semana.
De qualquer modo, as pessoas foram chegando. Não me recordo bem quando, mas em algum momento eu fui abrir a porta da casa da Carlinha e lá estavam o Érico e a Pop, duas das pessoas mais generosamente magníficas que eu já conheci na vida. Eles dividiam um ap em São José dos Campos e pareciam ter passado a vida inteira juntos, tal a sincronicidade com que se tratavam e se entendiam.
As meninas da casa ficaram todas loucas para tirar uma lasquinha do Érico, que era (e ainda é) um sujeito muito bonito, que usava um piercing em forma de cunha debaixo do lábio inferior. A pergunta que eu mais ouvia elas lhe fazerem era se machucava quando o beijavam. Motivo para o indagarem se podiam testar para tirar a prova.
Depois desse primeiro encontro tornamo-nos todos amigos uns dos outros. Eu fui a outros encontros, onde conheci mais pessoas da lista, com quem mantenho contato até hoje, mas o carinho por aqueles que foram aquele encontro em Sanca jamais foi superado. Talvez pelo fato de termos sido os pioneiros, talvez por estarmos todos longe de casa e querermos muito fazer novos amigos, talvez porque o destino era esse mesmo: onde quer que nos conhecêssemos, seja lá por qual motivo, acabaríamos por nos tornar bons amigos uns dos outros.
O tempo passou, nossas vidas mudaram, a gente mudou. Passamos a nos ver cada vez menos, a trocar menos mensagens, a não telefonarmos uns para os outros, até que ninguém mais sabia do outro direito.
A atitude mais radical foi tomada pelo Érico, que de repente tirou do ar seu blog, sua página do Orkut e se desligou da lista. Cheguei a imaginar que nunca mais voltaria a ter notícias dele e aquilo me deixou bem triste. Não é fácil fazer boas amizades e ainda mais difícil parece ser preservá-las. A sensação que eu tive é que eu era parte da culpa por aquela atitude.
Algumas pessoas tentaram me explicar o que tinha acontecido, mas ninguém chegou a dizer exatamente o que rolou.
Parece piegas, e é mesmo, mas quando perdemos de vista um amigo, a sensação que me dá é que entramos numa espécie de limbo… é como ter uma gaveta esvaziada, que a gente não consegue decidir o que colocar ali dentro.
Muito tempo se passou e dias atrás apareceu uma mensagem automática informando a postagem de um comentário neste blog.
Primeiro imaginei que pudesse ser um dos 3 ou 4 amigos que sabem que isso aqui existe, pra dizer que gostaram ou não de algo que eu escrevi. Qual foi minha surpresa ao ver o nome do Érico e uma frasezinha logo embaixo: “olha só quem eu encontro aqui”.
Não dá pra descrever a alegria que foi receber aquele telegrama eletrônico e talvez por isso eu não tenha pensado em nada que fosse realmente bom para lhe escrever.
Ele deixou o e-mail dele no comentário, mas eu resolvi responder aquele recado escrevendo esse post, porque eu gostaria muito que todos vocês soubessem que eu continuo aqui, apesar de tudo, amando a todos vocês como eu amo o Érico desde que o vi pela primeira vez, naquela manhã fria em Sanca, na porta da casa da Carla.
E espero que a gente não volte a se desencontrar outra vez!
Livros
junho 20, 2009
Quando eu era pequeno e morava em Lagoa Santa, meu sonho era ter um dia uma biblioteca com 25 mil exemplares. Vez por outra eu sentava em frente a estante da sala e ficava contabilizando o acervo pra ver o quão distante eu estava de minha meta.
Sempre gostei bastante de ler. Li muito gibi quando criança e depois de uma pausa na minha adolescência redescobri os quadrinhos com um amigo de faculdade, o Carlos Magno, que também gostava de ler e só comprava os livros dele em sebos. Foi com ele que aprendi a arte de negociar com os caras que eram donos desses espaços.
Passados quase quarenta anos de vida, acredito que ainda estou bastante distante daquela meta, mas o que eu tenho já está se tornando um problema aqui em casa.
Quando eu morava sozinho, tudo que eu tinha de valor eram meus discos, meus filmes e meus livros. Minhas roupas e apetrechos afins cabiam todos em uma cômoda de quatro gavetas e numa escrivaninha. Foi só quando casei com uma historiadora que a coisa começou a ficar profissional. Ela tinha bastantes títulos também e as duas estantes de metal que eu tinha não suportavam tantos livros. Geralmente elas empenavam ou tombavam pra frente, ameaçando um perigoso movimento de queda. Foi aí que decidimos comprar umas estantes de madeira, bem bacanas e bonitas, projetadas para acomodar todo nosso acervo e ainda uma pancada de futuras aquisições.
Hoje, 7 anos depois da compra dessas estantes, o espaço que sobra é o que está entre a lombada superior dos livros e a parte inferior das prateleiras sobre eles. Enfim, ficou complicado.
Prova disso foi que há cerca de 3 semanas uma das prateleiras onde estavam depositadas várias obras de capa dura acabou rachando e desmontando. Tivemos que improvisar uma solução enquanto arrumamos dinheiro pra comprar 2 novas estantes. O principal motivo é que esse tipo de problema deverá voltar a ocorrer com as outras prateleiras, então estamos pensando em trocar essas estantes por novas, mais resistentes.
De qualquer maneira há também o espaço físico disponível no nosso escritório, que limita o tamanho dessas estantes. E como a casa não é nossa, a gente fica com medo de comprar estantes grandes demais, que não caberiam em um novo escritório, em caso de mudança para uma casa menor.
Acho que já deu pra ter uma ideia do problema. Engraçado é ver o rosto de quem vem nos visitar pela primeira vez. Não há quem não nos faça aquela pergunta clássica: “Mas vocês já leram tudo isso?”. É claro que não. Nem é essa a intenção. Eu costumo dizer que sou um colecionador literário. Nem os quadrinhos que eu compro eu tenho mais tempo pra ler, mas não deixo de comprar uma obra sequer do Alan Moore. Será a herança que eu deixarei pra minha filha (além de meus discos e filmes) e tenho esperança de que ela vá gostar de ler.
Isso também não quer dizer que eu não queira ler o que tenho em meu acervo. Mas esse é o tipo de coisa que eu vou deixar pra fazer quando estiver curtindo uma licença prêmio, ou quando me aposentar e for morar em uma casa perto da praia no Nordeste brasileiro, rodeado por duas enfermeiras jovens e gostosas.
Certamente, esse meu vício em comprar a maior quantidade possível de tudo que eu acho interessante acabou suplantando outros desejos, que se tornaram menores, como o de ter um carro, por exemplo. Eu sempre faço as contas e acho melhor investir 300 reais por mês comprando livros do que pagando um automóvel, que também vai me consumir outros quase 500 reais de manutenção mensais. Sem contar que um automóvel se deprecia com o tempo, coisa que não ocorre com meus livros, discos e filmes.
Aliás, eu parei de contar quantos títulos eu tenho faz alguns anos. Foi outro daqueles desejos que eu acabei deixando pra trás.
Infância
junho 7, 2009
Em 1972, quando eu tinha 3 anos de idade, meu pai conseguiu uma transferência de Natal para Lagoa Santa, uma cidadezinha pacata (pelo menos era naquela época) do interior de Minas Gerais. A gente foi morar em uma vila construída especialmente para os sargentos e sub-oficiais da aeronáutica. Havia ainda outras 2 vilas, uma para os oficiais, localizada às margens da lagoa que dava nome à cidade, e outra para os civis, próxima ao Clube dos Sargentos, que era nosso lugar preferido de diversão durante o dia.
A vila era bacana e grande. Eram 3 quarteirões com casas separadas por cercas e muros baixos na frente. Duas ruas paralelas identificavam a rua de cima e a de baixo, e outras 4, perpendiculares a essas, acabavam o esquadrinhamento do lugar. O quarteirão do meio era o único da rua de cima que ficava de frente para uma nova fileira de casas. Foi o quarteirão onde moramos por longos 11 anos.
A casa era confortável, de tacos nos quartos e na sala e de pastilhas miúdas e brancas nos pisos do banheiro. Havia até uma banheira, que nunca usamos.
Atrás de casa um gramado enorme, de uns 4 por 15 metros de tamanho, onde minha mãe estendia roupas brancas para quarar. Quando acabava o gramado, começava uma longa descida, também gramada, até a cerca do vizinho de baixo. Não sei quantas vezes eu desci aquele gramado em cima de um pedaço de caixa de papelão até me estatelar perto da cerca. Era divertido, e enquanto a gente não é adulto sempre se acha imortal. Comigo não era diferente.
Não sei bem a razão, mas eu costumava ser um menino muito agressivo naquela época. Talvez pelas surras que meu pai me dava, mesmo quando eu cometia delitos brandos.
A questão era que em poucos meses eu já tinha brigado com quase todo mundo da minha rua e não tinha mais com quem brincar. As mães chamavam seus filhos pra casa quando eu abria o portão de minha casa. Quando eu passava tempos sem arrumar confusão com ninguém, algum garoto da turma dos mais velhos sempre arrumava um jeito de provocar um embate entre eu e outro moleque. O papo era sempre “não sei quem falou que você era fracote e te chamou pra brigar”. A mesma coisa era dita pra outro garoto da rua e em poucos minutos lá estava eu, socando a cabeça dele contra o muro da parede do vizinho.
Mas havia um menino, que morava na rua de baixo, no último quarteirão da vila, com quem eu continuava a brincar. O nome dele era Nielton e o motivo de nosso convívio sereno estava no fato dele morar bem longe de mim. Nossos pais eram e ainda são bastante amigos e não era à toa que eu o considerava “meu único melhor amigo”.
Anos depois o pai de Nielton se mudou com a família para Natal, onde ainda moram, e nossa amizade deu uma esfriada. Bem nessa época, um garoto que morava em frente a minha casa, o Marcelo, foi provocado por aqueles meninos mais velhos para brigar comigo. Círculo formado, nós dois nos olhando, bem em frente ao portão da garagem da casa dos pais dele, ele vira pra o garoto que nos provocava e diz “eu não vou brigar com ele, porque simplesmente não acredito no que vocês estão dizendo”. Aquilo causou uma profunda mudança em mim. Passei a também não acreditar nas barbaridades que me diziam aqueles meninos e me tornei um dos caras mais pacíficos que eu conheço… até hoje!!!
Tudo isso é pra dizer que eu sou pai de uma filha de 1 ano e 2 meses e ela é tão rude no trato comigo e com a mãe, que eu acho que nunca vamos ter longos momentos fraternos juntos. Mas depois eu me lembro daquele dia e de como ele me transformou e torço para que o destino conceda-lhe um momento semelhante de despertar um dia. E que seja logo!!
Como cheguei cá
maio 16, 2009
Depois de uns tempos, comecei a considerar o fato de que eu sou um sujeito de muita sorte, especialmente quando o assunto são as oportunidades que me foram anunciadas quando eu não tinha grandes expectativas.
Quando eu estava cursando meu terceiro ano de engenharia mecânica na UFRN cursei uma disciplina chamada Física Moderna. Era uma aula ótima de se assistir, porque os assuntos eram de fato interessantes: relatividade e mecânica quântica, física nuclear, propriedades ondulatórias das partículas… Aquilo tudo era fascinante e meu professor (Umbelino, que ainda deve lecionar essa disciplina na UFRN) sabia dar uma aula como poucos. Minha primeira nota foi um 10,0. Um dos poucos que consegui tirar em toda a minha carreira universitária.
Logo depois dessa primeira prova substituíram o professor.
Nessa época (circa 1989) eu já gostava muito de música e começava a descobrir um monte de coisas legais: The Smiths, Cocteau Twins, Joy Division, Bauhaus e afins (sobre isso escreverei em outros posts). Um amigo meu que era bolsista de iniciação científica do departamento de física geralmente se encontrava comigo nas mesinhas de concreto que ficavam em frente à cantina do bloco de laboratórios daquele departamento para conversamos sobre as novidades sonoras do momento. Foi durante um desses bate-papos (tem hífen ainda?) que fomos interrompidos pelo prof. Umbelino, que me convidou a trabalhar com ele oferecendo-me, inclusive, uma bolsa. No momento eu fiquei sem saber direito o que dizer, mas dois dias depois eu acabei procurando por ele pra dizer que aceitava a proposta.
Dois meses depois de estar trabalhando com o pessoal do grupo de pesquisa, ele me informou que um outro professor estava voltando do doutorado na Unicamp e me perguntou se eu topava trocar de orientador. Como eu nem tinha começado a trabalhar direito junto com a equipe, topei. Não tinha nada a perder mesmo.
O professor que estava voltando do doutorado era o Cabral e ele tinha interesse em materiais magnéticos duros, que eu nem suspeitava do que se tratava na época. Conheci o prof. Cabral umas semanas depois disso e a empatia foi imediata. Com ele construímos um equipamento para medir transições magnéticas acima da temperatura ambiente. Aprendi pacas durante esse período.
Quando terminei minha graduação, passei uns 6 meses meio que sem fazer nada, mas tinha uma grana guardada, que gastei toda patrocinando minhas curtições, e por isso não me preocupei muito em pensar no assunto. Nessa mesma época minha namorada de quase 3 anos rompeu comigo, o que desgraçou minha vida por uns 4 anos, mas aqueles 6 primeiros meses foram os piores de superar.
Foi aí que de volta aquela mesa do departamento de física, conversando com outro amigo meu que fazia mestrado lá, Cabral me abordou pra perguntar se eu topava fazer mestrado com ele. Fiquei mais uns 2 dias pensando no assunto, uma vez que eu teria que fazer uma prova de seleção na engenharia química e ainda convencer um professor daquele departamento a me orientar formalmente.
Resolvi topar o desafio. Estudei como nunca e consegui, com a ajuda do Cabral, arrumar um professor que topasse ser meu orientador formal na engenharia química. Mais ou menos no meio do mestrado o Cabral resolveu voltar a Campinas pra fazer um pós-doutorado e me convidou pra ir logo em seguida pra lá. A ideia era eu realizar toda a parte experimental na Unicamp e voltar pra Natal somente pra escrever minha dissertação.
Um amigo meu, o Aderson, topou ir comigo pra me dar uma mão. Lembr0-me que viajei com outro amigo meu, o Roberto, que estava indo começar o doutorado dele no mesmo laboratório que eu ficaria trabalhando.
Como eu tinha somente uns 30 dias pra fazer tudo, trabalhei como um louco, sempre com a ajuda do Aderson, o que impressionou o coordenador do laboratório, um dos sujeitos mais inteligentes que eu conheci em toda a minha vida. Um dia, em um churrasco na casa dele, ele se aproximou e me perguntou se eu tinha interesse em fazer o doutorado com ele depois do mestrado. Fiquei mais uns 2 dias pensando naquilo, sem acreditar na proposta que tinha escutado, mas acabei concordando. No entanto, faltava ainda convencer um prof. da engenharia mecânica da Unicamp a ser meu orientador formal, como havia sido na engenharia química. E mais uma vez o Cabral entrou em ação e conseguiu encontrar um professor que topasse entrar no esquema. Era quase como se fosse um milagre. Cerca de um ano depois eu recebia em minha casa uma carta da Unicamp informando que eu havia sido selecionado para o programa de pós-graduação da faculdade de engenharia mecânica.
Com isso, acabei me mudando pra Campinas, onde acabei morando por 6 anos. Foi a primeira vez em minha vida que iria morar fora da casa de meus pais e esse foi, definitivamente, um dos momentos mais importantes de minha vida.