Primeiros anos

Maio 4, 2009

Durante meus primeiros anos de vida morei em uma pequena cidade do interior do estado do RN chamada Parnamirim, que durante o regime militar ganhou o famigerado nome de Eduardo Gomes, para depois, com o advento da Nova República, voltar a ser batizado com o seu nome original.
Naquela época, circa 1969-1972, a cidade parecia um grande quintal de minha casa. Meu pai era cabo da Aeronáutica e minha mãe tinha abandonado uma brilhante carreira escolar para cuidar de mim.
Eu me recordo bem pouco dessa fase de minha vida, mas algumas coisas eu ainda consigo descrever com bastante precisão. A casa onde morava era pequena e tinha aquele piso cimentado vermelho na sala, que minha mãe encerava semanalmente com uma devoção quase cívica. A cozinha possuía azulejos quadrados, pequenos, de aproximadamente 15 cm de lado que hoje quase não se vê mais nas lojas de materiais de construção. Havia também um pequeno jardim, mas dele eu não consigo me lembrar como era; apenas que existia. Em frente de casa havia uma vendinha, que por aquelas plagas as pessoas chamam de cigarreira, onde eu costumava comprar balas embaré todas as tardes. O gosto era o mesmo de um doce que era montado como se fosse um pirulito, chamado Zorro. Uma das delícias mais maravilhosas de minha infância.
Minha mãe conta que a vida da gente não era moleza, mas meu pai conseguia trazer comida pra casa, que era propriedade dele. Enquanto estava de folga de suas obrigações militares, ele estudava para prestar o vestibulinho da Escola de Especialistas da Aeronáutica, que na época tinha uma concorrência de quase 200 candidatos por vaga. No ano de 1970 meu pai teria sua última chance de tentar entrar na EEA. Era passar ou deixar a vida militar por, provavelmente, um emprego em alguma loja do comércio local.
O pai sempre foi um sujeito inteligente e tinha uma habilidade quase Newtoniana de entender as coisas, além de possuir uma memória pródiga. Fez a prova e passou entre os 10 primeiros colocados. Mudou-se para Guaratinguetá, sede da EEA, onde passou 2 anos aprendendo tudo sobre hélices de aviões, o que viria a ser sua especialidade.
Minha mãe conta que no dia em que ele pegou o ônibus para ir para São Paulo eu passei o dia no portão de casa, esperando que ele voltasse. Fiquei febril, tive alucinações, mas depois tudo ficou bem, na medida do possível.
Três anos, ou quase isso, se passaram até que meu pai voltasse de seu treinamento, mas a cidade continuava a mesma: um grande quintal de minha casa.
Parnamirim continua pequena para a idade que tem. Até hoje temos amigos por lá, com quem nos reunimos vez por outra para tomar cerveja e lembrar daqueles dias mornos do início da década de setenta, quando tudo o que importava para mim era poder, no final da tarde, comer alguns embarés da cigarreira do vizinho.

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