Como cheguei cá
Maio 16, 2009
Depois de uns tempos, comecei a considerar o fato de que eu sou um sujeito de muita sorte, especialmente quando o assunto são as oportunidades que me foram anunciadas quando eu não tinha grandes expectativas.
Quando eu estava cursando meu terceiro ano de engenharia mecânica na UFRN cursei uma disciplina chamada Física Moderna. Era uma aula ótima de se assistir, porque os assuntos eram de fato interessantes: relatividade e mecânica quântica, física nuclear, propriedades ondulatórias das partículas… Aquilo tudo era fascinante e meu professor (Umbelino, que ainda deve lecionar essa disciplina na UFRN) sabia dar uma aula como poucos. Minha primeira nota foi um 10,0. Um dos poucos que consegui tirar em toda a minha carreira universitária.
Logo depois dessa primeira prova substituíram o professor.
Nessa época (circa 1989) eu já gostava muito de música e começava a descobrir um monte de coisas legais: The Smiths, Cocteau Twins, Joy Division, Bauhaus e afins (sobre isso escreverei em outros posts). Um amigo meu que era bolsista de iniciação científica do departamento de física geralmente se encontrava comigo nas mesinhas de concreto que ficavam em frente à cantina do bloco de laboratórios daquele departamento para conversamos sobre as novidades sonoras do momento. Foi durante um desses bate-papos (tem hífen ainda?) que fomos interrompidos pelo prof. Umbelino, que me convidou a trabalhar com ele oferecendo-me, inclusive, uma bolsa. No momento eu fiquei sem saber direito o que dizer, mas dois dias depois eu acabei procurando por ele pra dizer que aceitava a proposta.
Dois meses depois de estar trabalhando com o pessoal do grupo de pesquisa, ele me informou que um outro professor estava voltando do doutorado na Unicamp e me perguntou se eu topava trocar de orientador. Como eu nem tinha começado a trabalhar direito junto com a equipe, topei. Não tinha nada a perder mesmo.
O professor que estava voltando do doutorado era o Cabral e ele tinha interesse em materiais magnéticos duros, que eu nem suspeitava do que se tratava na época. Conheci o prof. Cabral umas semanas depois disso e a empatia foi imediata. Com ele construímos um equipamento para medir transições magnéticas acima da temperatura ambiente. Aprendi pacas durante esse período.
Quando terminei minha graduação, passei uns 6 meses meio que sem fazer nada, mas tinha uma grana guardada, que gastei toda patrocinando minhas curtições, e por isso não me preocupei muito em pensar no assunto. Nessa mesma época minha namorada de quase 3 anos rompeu comigo, o que desgraçou minha vida por uns 4 anos, mas aqueles 6 primeiros meses foram os piores de superar.
Foi aí que de volta aquela mesa do departamento de física, conversando com outro amigo meu que fazia mestrado lá, Cabral me abordou pra perguntar se eu topava fazer mestrado com ele. Fiquei mais uns 2 dias pensando no assunto, uma vez que eu teria que fazer uma prova de seleção na engenharia química e ainda convencer um professor daquele departamento a me orientar formalmente.
Resolvi topar o desafio. Estudei como nunca e consegui, com a ajuda do Cabral, arrumar um professor que topasse ser meu orientador formal na engenharia química. Mais ou menos no meio do mestrado o Cabral resolveu voltar a Campinas pra fazer um pós-doutorado e me convidou pra ir logo em seguida pra lá. A ideia era eu realizar toda a parte experimental na Unicamp e voltar pra Natal somente pra escrever minha dissertação.
Um amigo meu, o Aderson, topou ir comigo pra me dar uma mão. Lembr0-me que viajei com outro amigo meu, o Roberto, que estava indo começar o doutorado dele no mesmo laboratório que eu ficaria trabalhando.
Como eu tinha somente uns 30 dias pra fazer tudo, trabalhei como um louco, sempre com a ajuda do Aderson, o que impressionou o coordenador do laboratório, um dos sujeitos mais inteligentes que eu conheci em toda a minha vida. Um dia, em um churrasco na casa dele, ele se aproximou e me perguntou se eu tinha interesse em fazer o doutorado com ele depois do mestrado. Fiquei mais uns 2 dias pensando naquilo, sem acreditar na proposta que tinha escutado, mas acabei concordando. No entanto, faltava ainda convencer um prof. da engenharia mecânica da Unicamp a ser meu orientador formal, como havia sido na engenharia química. E mais uma vez o Cabral entrou em ação e conseguiu encontrar um professor que topasse entrar no esquema. Era quase como se fosse um milagre. Cerca de um ano depois eu recebia em minha casa uma carta da Unicamp informando que eu havia sido selecionado para o programa de pós-graduação da faculdade de engenharia mecânica.
Com isso, acabei me mudando pra Campinas, onde acabei morando por 6 anos. Foi a primeira vez em minha vida que iria morar fora da casa de meus pais e esse foi, definitivamente, um dos momentos mais importantes de minha vida.