Infância

Junho 7, 2009

Em 1972, quando eu tinha 3 anos de idade, meu pai conseguiu uma transferência de Natal para Lagoa Santa, uma cidadezinha pacata (pelo menos era naquela época) do interior de Minas Gerais. A gente foi morar em uma vila construída especialmente para os sargentos e sub-oficiais da aeronáutica. Havia ainda outras 2 vilas, uma para os oficiais, localizada às margens da lagoa que dava nome à cidade, e outra para os civis, próxima ao Clube dos Sargentos, que era nosso lugar preferido de diversão durante o dia.

A vila era bacana e grande. Eram 3 quarteirões com casas separadas por cercas e muros baixos na frente. Duas ruas paralelas identificavam a rua de cima e a de baixo, e outras 4, perpendiculares a essas, acabavam o esquadrinhamento do lugar. O quarteirão do meio era o único da rua de cima que ficava de frente para uma nova fileira de casas.  Foi o quarteirão onde moramos por longos 11 anos.

A casa era confortável, de tacos nos quartos e na sala e de pastilhas miúdas e brancas nos pisos do banheiro. Havia até uma banheira, que nunca usamos.

Atrás de casa um gramado enorme, de uns 4 por 15 metros de tamanho, onde minha mãe estendia roupas brancas para quarar. Quando acabava o gramado, começava uma longa descida, também gramada, até a cerca do vizinho de baixo. Não sei quantas vezes eu desci aquele gramado em cima de um pedaço de caixa de papelão até me estatelar perto da cerca. Era divertido, e enquanto a gente não é adulto sempre se acha imortal. Comigo não era diferente.

Não sei bem a razão, mas eu costumava ser um menino muito agressivo naquela época. Talvez pelas surras que meu pai me dava, mesmo quando eu cometia delitos brandos.

A questão era que em poucos meses eu já tinha brigado com quase todo mundo da minha rua e não tinha mais com quem brincar. As mães chamavam seus filhos pra casa quando eu abria o portão de minha casa. Quando eu passava tempos sem arrumar confusão com ninguém, algum garoto da turma dos mais velhos sempre arrumava um jeito de provocar um embate entre eu e outro moleque. O papo era sempre “não sei quem falou que você era fracote e te chamou pra brigar”. A mesma coisa era dita pra outro garoto da rua e em poucos minutos lá estava eu, socando a cabeça dele contra o muro da parede do vizinho.

Mas havia um menino, que morava na rua de baixo, no último quarteirão da vila, com quem eu continuava a brincar. O nome dele era Nielton e o motivo de nosso convívio sereno estava no fato dele morar bem longe de mim. Nossos pais eram e ainda são bastante amigos e não era à toa que eu o considerava “meu único melhor amigo”.

Anos depois o pai de Nielton se mudou com a família para Natal, onde ainda moram, e nossa amizade deu uma esfriada. Bem nessa época, um garoto que morava em frente a minha casa, o Marcelo, foi provocado por aqueles meninos mais velhos para brigar comigo. Círculo formado, nós dois nos olhando, bem em frente ao portão da garagem da casa dos pais dele, ele vira pra o garoto que nos provocava e diz “eu não vou brigar com ele, porque simplesmente não acredito no que vocês estão dizendo”. Aquilo causou uma profunda mudança em mim. Passei a também não acreditar nas barbaridades que me diziam aqueles meninos e me tornei um dos caras mais pacíficos que eu conheço… até hoje!!!

Tudo isso é pra dizer que eu sou pai de uma filha de 1 ano e 2 meses e ela é tão rude no trato comigo e com a mãe, que eu acho que nunca vamos ter longos momentos fraternos juntos. Mas depois eu me lembro daquele dia e de como ele me transformou e torço para que o destino conceda-lhe um momento semelhante de despertar um dia. E que seja logo!!

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